Contra o Velo Clube, Portuguesa venceu primeiro jogo na temporada — Foto: Dorival Rosa / Portuguesa
Um desespero. Uma agonia. Um sofrimento. Seria possível usar todo o espaço deste texto para citar sinônimos e, ainda assim, não seria exagerado. Todos esses termos resumem muito melhor o que foi Portuguesa x Velo Clube do que o placar final.
Quem não viu o jogo e fica apenas sabendo que a Lusa venceu por 2 a 0, no Canindé, com dois atacantes balançando redes, no caso Renê e Maceió, pode imaginar que foi finalmente uma vitória consistente e segura de um time que evoluiu.
Essa pessoa mal supõe que a evolução foi justamente, nesta terceira rodada do Paulistão, a retomada da postura da estreia. Ou seja, um time concentrado, dedicado, aguerrido, brigando por cada bola, acreditando em cada jogada, suando dobrado.
Uma postura que, diante de um adversário da mesma prateleira técnica, que é o Velo Clube, foi “suficiente” para suplantar as limitações e obter a primeira vitória no ano. As aspas são porque esse “suficiente” foi no limite do limite. Sem margem alguma.

Para essa partida, o técnico Fábio Matias promoveu duas mudanças. Deixou o volante Hudson no banco para colocar o meia, às vezes improvisado de volante, Guilherme Portuga. E, no ataque, em vez de Lohan ou Igor Torres, foi de Ewerthon.
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A terceira mudança foi forçada. No trabalho de aquecimento, o lateral esquerdo Gustavo Salomão sentiu um desconforto muscular e foi poupado após uma avaliação da equipe médica lusitana. Com isso, o recém-contratado Caio Roque estreou na função.
A Lusa, então, foi de Bertinato no gol; João Vitor na lateral direita e Caio Roque na esquerda; Gustavo Henrique e Eduardo Biazus no miolo de zaga; Guilherme Portuga, Zé Vitor e Gabriel Pires no meio; Ewerthon, Renê e Maceió no ataque.
Ao colocar Portuga, o técnico lusitano tentou dar ao meio-campo um caráter mais ofensivo. Em teoria, empregaria mais mobilidade e até mais qualidade no passe. Isso em um setor que, nas duas primeiras rodadas, mostrou-se amarrado e arrastado.
Já na frente, estava na cara desde a contratação que Ewerthon chegou para ser titular na beirada direita. Como desembarcou no Canindé em cima da hora, ficou no banco nas duas primeiras rodadas. E acabou virando uma das únicas alternativas de Fábio Matias.
Igor Torres, na estreia, sofreu uma expulsão displicente que rendeu a derrota ao Palmeiras. Lohan, na derrota em Capivari, fez em campo o mesmo que faria se tivesse ficado no banco. A outra única alternativa seria Cadorini, mas como uma referência. O treinador preferiu testar um ataque, assim como o meio, mais móvel e veloz.
Essas mudanças fizeram com que se visse uma nova Portuguesa em campo? Ou, em outras palavras, fizeram o time jogar muito melhor? Trouxeram uma grande solução? Dão um grande alento para a sequência? Seria um exagero enorme responder que sim.
Obviamente que contribuíram – sobretudo – para um começo de jogo mais ofensivo. O que talvez tenha colaborado para a Lusa pisar mais na área do que na rodada passada. E pisar na área foi importante para sofrer o pênalti convertido por Renê aos 18 minutos.
Um pênalti assinalado pelo árbitro Flávio Rodrigues de Souza após consultar o VAR. Não há o que discutir. O zagueiro Marcelo quase arrancou o calção de Renê ao tentar marcá-lo dentro da área. Não foi a toa que o primeiro gol do ano surgiu de um pênalti.
E aqui está a explicação do motivo de, como escrito há pouco, ser difícil determinar uma grande mudança com essas mexidas na escalação. A Portuguesa não conseguiu criar quase nada efetivamente. Quantas foram as finalizações? Quantas chances de gol?
Havia dificuldade antes de abrir o placar. E essa dificuldade permaneceu intacta mesmo com o Velo Clube precisando sair para buscar o empate, dando mais espaço. Por quê? Porque a SAF, mais uma vez, montou mal demais o elenco deste Paulistão.
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Fábio Matias em Portuguesa x Velo Clube — Foto: Dorival Rosa / Portuguesa
Não há quem finalize nesse time. Nenhum dos três da frente é centroavante. Nos melhores momentos, a bola fica circundando a área, de pé em pé, procurando alguém que finalize. O que tentou, em alguns raríssimos momentos, foi o meia Gabriel Pires. Que fez o melhor jogo até aqui, apesar de isso não querer dizer muita coisa.
Com isso, era nítido o que aconteceria no segundo tempo. O Velo Clube se lançaria ao ataque em busca do empate e a Lusa passaria sufoco. Afinal, ao mesmo tempo em que não agredia, estava escalada de modo que deixava mais vulnerável o setor defensivo.
O técnico Fábio Matias até demorou para fechar o time. Não é uma postura que agrada a torcida. Muito menos jogando em casa, vencendo, contra um adversário que não é um “bicho papão”. Só que é a única coisa eficaz em um time tão limitado tecnicamente.

Colocou até tarde os volantes Hudson e Cecchini nas vagas dos meias Portuga e Zé Vitor. Mais tarde ainda um terceiro zagueiro, Eric, sacando o meia Gabriel Pires. E acertou ao colocar Sciência em uma lateral direita, àquela altura, já frágil.
Por fim, o que falar de Igor Torres? Esforçado é impossível deixar de dizer que é. Só que, depois daquela expulsão, entra e toma um amarelo logo de cara. Ao tentar dar uma bicicleta e acertar o rosto do adversário. Inacreditável. Haja fragilidade técnica.
A Portuguesa, mesmo mais resguardada, sofreu demais. Muito porque, conforme os minutos passavam, via-se mais desorganização no time. O que passou a fazer a equipe dar um passo atrás a cada jogada. Quando se viu, estavam todos dentro da área tentando a duríssimas penas afastar a bola em uma surreal sequência de seis escanteios.
A limitação técnica passou a se confundir com o nervosismo e a Lusa simplesmente não conseguia segurar a bola, trocar passes, adiantar um pouco as linhas, desafogar um pouco a defesa, deixar o tempo passar. Foi um desespero tremendo o fim do jogo.
O empate só não veio graças a dois fatores. Um deles – a sinceridade pede que seja dito – a fragilidade ofensiva do Velo Clube. O outro – o mais importante e decisivo – uma atuação iluminada, irretocável e memorável do goleiro Bruno Bertinato.
Já havia salvado a Portuguesa no comecinho do jogo, em um momento em que um gol teria transformado o jogo completamente e desestabilizado provavelmente de vez o time rubro-verde. E, no fim, salvou outra vez naquele abafa da equipe de Rio Claro.
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Torcida da Portuguesa em jogo contra o Velo Clube — Foto: Dorival Rosa / Portuguesa
Bertinato, aliás, vem sendo um dos melhores jogadores desse time. O que também diz muito sobre os sofrimentos que a Lusa tem passado. Um sofrimento que, não custa repetir, vem de uma montagem de elenco extremamente frágil e contestável.
A SAF, além de ter gastado pouquíssimo, montou um elenco que montaram vários clubes sem o investimento que a Portuguesa diz ter. E até pior que alguns deles. Mesmo sem toda a ciência da qual a gestão lusitana se gaba. E que teria de usar. Ou saber usar.
Fábio Matias parece vir fazendo o que dá. Pode-se discordar de uma ou outra decisão, mas as opções são precárias. Adotou, no início do jogo contra o Velo Clube, um esquema que só caberá nesse tipo de jogo. E, no fim, mesmo com atraso, fez o que seria necessário. O problema é que, nos dois casos, conta com peças bem limitadas.
É válida a discussão em torno de atuar com três zagueiros e liberar mais os laterais para o apoio. Também é valida a reflexão sobre um meio-campo mais reforçado para um tipo de jogo e mais solto para outro. E da vontade de se ver mais de Cadorini na frente.
No entanto, pelo que se nota, nenhum desses será o grande fator para esse time se livrar do rebaixamento no Paulistão. Fica claro que, independente do caminho, a limitação técnica é gritante. E, nesses casos, o espírito de luta acaba sendo a única saída.
Foi o que fez a Lusa quase pontuar contra o Palmeiras, não fosse a expulsão. Foi o que fez essa mesma Lusa vencer o Velo Clube nessa terceira rodada. Pode parecer pouco. Mas o pouco acaba sendo “suficiente”, novamente entre aspas, nesse cenário pobre.
Em Capivari, em uma atuação deprimente, com essa postura acesa, ligada, focada, brigadora, lutadora, a Portuguesa não teria sofrido aquele gol. Só que lá mal se pisou na área para se sofrer um pênalti. E mal se encaixou um contragolpe para aproveitar.
Afinal, o que foi o gol de Maceió aos 46 minutos do segundo tempo contra o Velo Clube? Saiu por uma única e exclusiva causa: acreditar. Se não estivesse totalmente dentro do jogo, lutando, batalhando, confiando, não ganharia do goleiro e faria o 2 a 0.
Gol esse que provocou uma explosão no Canindé. Explosão não de empolgação, euforia ou confiança. Explosão de alívio após um jogo que mexeu com os nervos e o coração de todos que torcem pela Portuguesa. Um alívio mais pelas contas que pela bola.
São três pontos valiosíssimos na luta contra o rebaixamento. A Lusa tinha de ganhar de qualquer jeito. O Paulistão não dá trégua. E ninguém vai aprender a jogar bola da noite para o dia. Porém, se a bola não será muito diferente disso, a postura também não pode ser. Parece que só o espírito de luta será capaz de driblar mais essa lambança da SAF.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 15 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.

