Fabio Matias, treinador da Portuguesa — Foto: Dorival Rosa / Portuguesa Aos 30 minutos do segundo tempo, a torcida da Portuguesa que se acotovelava no apertado e lotado setor visitante do es.
Fabio Matias, treinador da Portuguesa — Foto: Dorival Rosa / Portuguesa Aos 30 minutos do segundo tempo, a torcida da Portuguesa que se acotovelava no apertado e lotado setor visitante do es.
Updated: April 7, 2026
Fabio Matias, treinador da Portuguesa — Foto: Dorival Rosa / Portuguesa
Aos 30 minutos do segundo tempo, a torcida da Portuguesa que se acotovelava no apertado e lotado setor visitante do estádio Ítalo Mário Limongi, em Indaiatuba, via o Primavera vencer por 1 a 0 sem grandes riscos, sustos ou perigos aparentes.
Era difícil encontrar uma exceção às reclamações. Que começavam pelo fato de que a Lusa, mais uma vez, havia entrado relativamente bem na partida e, apesar de não ter criado tantas chances de gol, poderia muito bem ter aberto o marcador.
As queixas ainda passavam pelo fato de, ao longo do primeiro tempo, ter deixado o Primavera gostar do jogo, crescer, controlar a bola e passar a levar perigo. E, claro, culminavam nas duas falhas que deram o gol ao time da casa antes do intervalo.
A Portuguesa, que já havia dormido no ponto minutos antes e se safado de sofrer o gol graças a um impedimento, esforçou-se para ajudar o Primavera. O goleiro Bertinato, com a visão mais privilegiada de todo o time, saiu jogando completamente errado.
De todos em campo, era quem mais poderia ver que Gabriel Pires não era uma opção de passe. O meia, por sua vez, como se estivesse totalmente desconectado do jogo, para piorar, adiantou-se e pediu a bola. O adversário estava bem atrás dele. Ninguém gritou.
O atacante Welliton se antecipou, tirou a bola dos pés de Gabriel e finalizou na saída de Bertinato. Eram passados 40 minutos do primeiro tempo. O Primavera fazia 1 a 0 em cima de um erro da Lusa, em um lance totalmente evitável e até bobo.
A torcida ficou ainda mais nervosa, e com quase nenhuma esperança, no começo da etapa final. Ao contrário do que se esperava de uma equipe atrás no marcador, via-se uma Portuguesa em marcha lenta, errando passes e ainda dando espaços.
O técnico Fábio Matias, então, resolveu mexer. E, ao fazer isso, acabou também virando alvo das reclamações da arquibancada rubro-verde. Basicamente, trocou todo o meio-campo. Sacou os meias Guilherme Portuga, Zé Vitor e Gabriel Pires. Colocou o volante Hudson, o meia Denis e o centroavante Matheus Cadorini. Por fim, ainda trocou o beirada pela direita: saiu o apagadíssimo Ewerthon e entrou Cauari.
Os três que saíram não justificaram em momento algum merecer estar em campo. O problema é que, graças a uma péssima montagem de elenco por parte da SAF, Fábio Matias tem escassas opções no banco de reservas – de função a nível técnico.
O treinador deu a entender que, se já não tinha meio-campo mesmo, a tentativa seria jogar pelas beiradas. A Lusa atuava, com boa vontade no termo, em uma espécie de 4-2-4. Será que essa bola chegaria ao setor ofensivo para resultar em finalização?
E foi nesse exato momento mencionado no início do texto, aos 30 minutos do segundo tempo, que a torcida da Portuguesa se deu conta de que Fábio Matias estava em uma noite absolutamente iluminada. As apostas do treinador deram mais do que certo.
Isso porque, aos 31 minutos, Denis pegou a bola na intermediária e deu um passe de cinema para Matheus Cadorini. Viu espaço onde poucos veriam. Colocou na bola a curva necessária para o zagueiro não chegar. O centroavante luso, bem posicionado, perto da marca do pênalti, mandou para o fundo das redes. Era o empate: 1 a 1.
Nitidamente desperta após o gol, a Lusa partiu para cima na retomada do jogo. Aos 34 minutos, Maceió desceu pela esquerda e tentou outro cruzamento para Cadorini. A zaga fatiou, o goleiro Victor Hugo tirou muito mal, colocando a bola nos pés de Cauari. O atacante matou de primeira e só teve o trabalho de chutar para as redes: 2 a 1.
Em três minutos, tudo mudou. O Primavera claramente sentiu o baque. Parecia não acreditar que aquele adversário, aparentemente dominado e batido, conseguiu dar a volta no placar. Dali em diante foi apenas segurar o resultado até o apito final.
Os xingamentos contra o goleiro Bertinato, o meia Gabriel Pires e o técnico Fábio Matias, que aos 30 minutos eram uma certeza absoluta, viraram aos 51 minutos uma festa gigantesca no setor visitante do estádio Ítalo Mário Limongi, em Indaiatuba. “De besta a bestial”, como dizia o lendário treinador rubro-verde Oto Glória.
Os lusos se entreolhavam na arquibancada como que sem acreditar no que haviam acabado de presenciar. Fazia muito tempo que não se via a Lusa vivenciar isso. Como disse um grande amigo, “também somos filhos de Deus”. É raro, mas acontece.
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Primavera x Portuguesa — Foto: Dorival Rosa / Portuguesa
Fábio Matias tem, sim, os méritos dessa vitória. Mexeu e aqueles nos quais apostou resolveram. Substitutos que também merecem os elogios, afinal, foram os responsáveis diretos por esses três importantíssimos e fundamentais pontos na competição.
Uma vitória que livrou a Portuguesa de qualquer risco matemático de rebaixamento no Paulistão. Uma vitória que devolveu o clube ao G8. Uma vitória que permite, nas duas rodadas que restam, brigar seriamente por uma vaga nas quartas de final.
Um jogo que precisa ser usado em uma tentativa de virada de chave para comissão técnica, elenco e mesmo torcida. Nessa reta final, é preciso tentar fazer desse triunfo mais do que um “milagre de Indaiatuba” e uma “noite iluminada”.
Precisa também ser encarado mais do que só um desabafo contra a falta de água e luz no vestiário visitante, contra a tentativa de agressão a lusitanos nas tribunas, contra a falta de ingressos para a torcida da Portuguesa sob alegações extremamente contestáveis.
Sim, valeu para tirar da garganta a revolta com o fato de muitos terem entrado no estádio com o jogo começado, terem sido obrigados a comprar ingressos de cambistas, terem visto a partida em um setor que não permite enxergar todo o campo.
Porém, tem de ser usada como a vitória que mudou a perspectiva da Portuguesa na competição. Só assim os jogos contra a Ponte Preta, no Canindé, e o Mirassol, fora de casa, podem quem sabe ser mais do que um cumprimento de tabela.
Para tentar a classificação, a Lusa precisará de mais do que mostrou em Indaiatuba. Fábio Matias é experiente e, como um treinador que conhece o elenco que tem e que está “tirando leite de pedra”, sabe que algumas mudanças são necessárias.
Esse jogo mostra que Cadorini é o finalizador que estava faltando? Esse jogo mostra que Cauari tem de ser o dono absoluto da beirada? Esse jogo mostra que Denis deve ser o maestro dessa Lusa? As respostas são retóricas. É preciso ter calma e frieza.
Se fosse tão simples assim de resolver, que dúvida há de que Fábio Matias já teria resolvido? Fato é que, sem espaço, o meio com Portuga, Zé Vitor e Gabriel Pires inexiste. E também fato é que Ewerthon tem sido um fiasco no setor ofensivo.
Será que não pode ser uma oportunidade de testar Denis em uma das posições do meio-campo? Será que não pode ser uma oportunidade de testar Cadorini na frente sem que seja necessário mudar tão radicalmente a composição? Todos problemas “bons” que o técnico Fábio Matias terá. Mas sem ilusões com três minutos. O elenco é limitado.
Há que se recorrer à sinceridade. A cada jogo, mesmo nas vitórias, fica mais claro que, se a SAF tivesse feito duas ou três contratações mais assertivas, esse campeonato estaria sendo de muito menos turbulência e nem sombra de risco de rebaixamento.
Esse jogo acabou por sintetizar essa primeira fase de Paulistão para a torcida rubro-verde. Três quartos de oscilações e receio do pior. Um quarto de alívio e tentativa de transformar o sonho em realidade. O sonho de enfim olhar para o alto e lá brigar.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 15 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.